quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Panelas batidas seletivamente


Uma sociedade de memória curta
Que esquece suas mazelas,
Sua injustiça, suas lutas
Noticiário só se depois vier novela

Uma sociedade com memória seletiva
Se o caldo entorna pro seu lado
Busca-se uma alternativa
Se não, pra que ficar transtornado?

É criança pendurada na janela
É fome, é opressão, é morte
É cassetete e corpo estirado no chão

Mas por quem batem nossas panelas?
Quem nelas bate tão forte?
Quem é que as têm nas mãos?

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Algo está cambiando



Siempre hay algo más
Que a simple vista no se ve
VENEGAS, Julieta

Todos crescem, todos mudam. Essa bem que pode ser uma daquelas verdades universais. Porém, por mais universal que essa verdade pareça ser, a impressão é que o universo faz questão de que nós sejamos exceção. "A mudança está no outro, não em mim", é fácil se enganar com esse pensamento. 

Esquecemos, ou preferimos esquecer que a mudança é algo pessoal e constante. Não é só com o fulaninho que foi viajar, estudar fora etc. Quem fica consigo mesmo todos os dias, por mais que se observe bem, também está mudando. E o engraçado é que aquilo que antes fazia parte do que acreditávamos ser, e que agora nem lembramos mais, ainda permanece vivo na mente de outros alguéns.

Porém, por mais óbvia que essa nossa mudança seja para quem nos observa de tempos em tempos, ela é verdadeiramente chocante para nós. "Não, eu não mudei. Foi você quem mudou!". Afinal, essa vida diária com a gente mesmo tem lá suas consequências para a percepção, e assim nossa mudança nunca é aquela coisa abrupta que quem está fora observa com facilidade,

Na realidade, o nosso eu do ontem literal é, para nós, um gêmeo univitelino do nosso eu de hoje. Daí, quando nós damos conta das nossas mudanças, a base de comparação nunca é o ontem literal, mas o ontem figurado. É o passado, no sentido mais comum. E a constatação pura do rio de Heráclito.

E por mais linda que seja a singularidade do momento, a certeza de que ele é único - afinal, já cantava Lulu Santos que "nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia"-, o momento em que nos damos conta de que a não repetição da vida implica uma não repetição de nós mesmos, esse momento, meu amigo, é belo na teoria e inquietante na prática.

E agora, poderemos confiar em nós mesmos? Em nossos planos, decisões, desejos, motivações? E se o meu eu de amanhã for algo que eu não consiga aceitar? São as inquietações de se aceitar como ser mutante.

Mas nós aceitamos, embora seja uma aceitação velada e diária. Concordamos, cedemos e, de repente, ouvimos frases do tipo "você tá mudada" e a resposta automática que vem à mente é "não, não tô". Mas, enfim, se todo mundo muda, então acho que eu posso me permitir me perceber mudada.

Nos permitimos uma mudança a partir do olhar do outro e queremos, mas queremos renegar as transformações do eu a um estágio apenas físico. "Foi só o cabelo que eu cortei, nada demais", dizemos para poder pontuar as mudanças, contabilizá-las certinho para que não dê nada errado no nosso balancete depois.

Mas, mesmo com essas negativas, se deparar com seu eu interior antigo - seja nas páginas de um diário ou nos primeiros posts de um blog que te acompanha há longa data - é um verdadeiro soco no estômago. E não gostamos de socos, eles doem.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Crônica de quinta sobre um término hipotético


Foi inevitável: eles terminaram. Ela saiu da casa deixando os móveis, a coleção de xícaras de café e os sentimentos, todos empoeirados. Era seu dia de fazer faxina na casa, mas isso não importava mais. Ele ficou na sala mais chateado por ter que dar um jeito naquela bagunça do que na própria vida.

Ela virou a esquina, rumo ao ponto. O ônibus já estava vindo, ela havia checado no aplicativo quando estava no banheiro fazendo hora pra sair de vez da sua recente vida antiga.

Ele levantou da cadeira em que estivera sentando olhando um lixo feito de papel velho e pó empurrados para debaixo da estante de livros. "Inacreditável", disse. Havia visto ela empurrar o lixo ali pra baixo há 2 semanas, por isso, no seu dia de fazer faxina, ele ignorou. "Inacreditável!", disse novamente, agora balançando a cabeça em negativa. Até isso ela achava que era responsabilidade dele: o lixo que ela mesma esconde debaixo da estante. Definitivamente era o fim.

Ela subiu no ônibus menos de 5 minutos depois de sair de casa. Reparou que sua blusa tinha a mesma mancha que ela havia pedido pra que ele esfregasse com  um pouco mais de vigor na semana passada, no dia dele de ajeitar as coisas. Pelo visto, não havia feito. Agora, além de sair de casa, ela tinha que andar esculhambada pela rua, como quem não tem coragem de lavar a própria roupa com decência. Era o fim, estava claro.

E por conta desses detalhes, que em situações assim são verdadeiros desaforos, eles não se falaram mais. Um não ligou pro outro, nem mandaram mensagens pelo WhatsApp. Deixaram de se seguir nas redes sociais, mudaram o status de "em um relacionamento sério" para "solteiro" e seguiram suas vidas como quem tem muita coisa pra viver ainda pela frente. 

Ela desbloqueou o Instagram de vez e ele, idem. Quase três meses depois, o Instagram dela segue desbloqueado. Os dois começaram a usar a função Stories e cada um acompanha, a uma distância segura que é demarcada pelo término, a vida do outro. Ela começou a postar pequenos vídeos das coisas que via, mais para atualizá-lo sobre sua nova vida do que para jogar na cara dele que ela vivia  bem, obrigada.

Ele começou a postar vídeos com fundo musical das suas recentes descobertas no Spotify, coisa que antes não fazia, pois descobriam as músicas juntos. Mas isso foi antes desses três meses que se passaram, antes das brigas se intensificarem, antes do silêncio que se instalou, como se eles tivessem combinado de abrir o relacionamento e convidar a solidão. Foi em um antes que até parece ter sido em outra vida.

De nada adianta viver de passado, ela pensa com frequência. Mas, mesmo assim, não consegue deixar de clicar no círculo da foto de perfil dele no Instagram, não consegue deixar de acompanhar as descobertas musicais que ele faz. Virou ritual: antes de dormir, ela entra no perfil e vê vídeo a vídeo, sempre tomando cuidado de sair antes de terminar. Não quer que ele saiba que ela esteve ali, mesmo que haja dias em que bate aquela vontade de ver o vídeo até o fim.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Balanço das leituras de 2016

Todo começo de ano eu tenho vontade de ler mais. Na verdade, esse gás todo costuma chegar em novembro, quando a faculdade começa a dar aquela folga na rotina e eu tento superar o número de livros lidos no ano anterior. Eu fico com a esperança de ler horrores para compensar as procrastinações ao longo do ano. Nunca dá certo. Mas eu teimo em recomeçar o ano batendo o pé e fazendo tudo de novo. E por que esse ano seria diferente?

Escrevo esse post com a convicção de que esse ano eu vou arrebentar a boca do balão em termos de metas literárias (Deus, por favor, me ajuda nessa jornada). Mas sei que lá pra maio eu vou estar pedindo arrego - ou melhor, lutando para terminar um livro de menos de 200 páginas. A procrastinação é um vício, minha gente.

A vida é cruel e a danada tem seus ciclos. Daí a função desse post: dar aquela revigorada nas forças e aquele puxão de orelha. Quero ler esse post como se ele me dissesse: "Andressa, para de graça, termina o livro, caramba".

Agora, enquanto as expectativas estão altas, é hora de comemorar os feitos literários. E, esse ano, eu li bem mais que em todos os anos anteriores e pretendo seguir no ritmo até quando der. 

Pra variar, vi a retrospectiva de leitura que a Jéssica Carvalho do Extra Literário fez e divulgou lá no grupo do 30:MIN (em Prezi, meu Deus!) e é óbvio que eu quis fazer uma também. Só que uma combinação de inabilidade com Prezi e preguiça me fizeram correr pro Canva e fazer um bannerzinho mesmo. É o que temos para 2016, um ano que muita gente quer apagar da história. Então, esqueça isso de Prezi. Aqui a gente tem intenção, mas não é sempre que dá. Apreciemos:


Ao todo, li 24 livros; mas, depois de analisar melhor a lista de lidos de 2016, tirei informações bem úteis que valem a pena eu ressaltar aqui:


  • Percebi que, embora eu leia bastante livros nacionais - 10 de 24 -, eu ainda estou focando muito nos autores de língua inglesa (foram 6 livros de autores estadunidenses e 3 de ingleses). Fora desse eixo centralizador que perpassou minhas leituras em 2016, estão 1 livro de autor japonês, 1 de autor francês e 3 de autores colombianos. 
  • Em relação ao gênero, li apenas 7 livros escritos por mulheres (mais 2 escritos tanto por homem quanto por mulher); a maioria absoluta foi de autores masculinos. Por conta disso, pretendo aderir ao Leia Mulheres e aumentar meu número de autoras lidas neste ano - quem sabe não rola de eu ir em um dos encontros de São Paulo? São possibilidades).
  • Meu apego ao livro físico não é fase, é coisa minha mesmo. Esse ano, a goleada foi de 22x2.
  • Em termos de páginas lidas, esse ano fiquei por volta das 5 mil.

Eis a lista de lidos (qualquer dúvida, entrar no meu perfil no Skoob - separei bonitinho por ano lá):


Não sou adepta do Good Reads, mas a vida é cheia de surpresas, não é mesmo? Gosto bastante do Skoob, mas quero testar a concorrência. Quem sabe eu faço um test drive esse ano... E quem sabe eu não leio mais esse ano? Afinal, ler tem sido um hábito que me possibilitou inúmeras descobertas e ampliou meus horizontes. Nada mais justo que ampliar a cada ano o espaço para os livros na minha vida . Afinal, os obstáculos estão aí e quem não é viciado em procrastinar os enfrenta muito bem, obrigada.

Fica aí minha conclusão clichê do meu "2016 literário".