quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Peligroso...



Conhecer é entrar por uma porta estreita e seguir por um corredor igualmente estreito onde só se pode continuar/completar a passagem se deixar pelo caminho réstias de felicidade que não poderá mais retomar para si.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Sem Motivo...



Eu canto porque o instante existe
e minha vida não é completa, é pouca.
Não sou alegre nem sou triste
- sou louca.

Irmã de coisas fugidias
sinto gozo, tormento e mansidão.
E atravesso meus dias e noites
imersa em solidão.

Se desmorono, me edifico;
se permaneço, me desfaço.
Não sei, talvez...
Talvez eu me seja aos pedaços.

Sei que canto e cantar é tudo
e a eternidade justifica o que me mata.
E sei que tudo acaba num minuto
de forma ingrata.
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Parafraseando 'Motivo', de Cecília Meireles...

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

O refúgio de Clara...



Abrir a janela a noite sempre fora o refúgio de Clara. Olhar lá fora e fingir que o mundo era colorido, que os problemas eram apenas provas a se superar, que a cidade era linda refletida nos faróis dos carros acesos funcionava como um anestésico para a vida real.

Durante o dia, a rotina de Clara a consumia, mas, com o tempo, ela descobriu uma maneira de fazer tudo mecanicamente para devanear nos intervalos em que não precisasse pensar em absoluto. E assim lavava, varria e cozinhava enquanto percorria campos verdes lutando artes marciais e bancando a mocinha má que, só de birra, salvava o mundo de salto alto e rouge. Assim ia vivendo.

Às vezes, no entanto, ela precisava despertar e se via respondendo 'Não' enquanto voltava para a realidade e descobria que o que a filha lhe perguntara era se ela, Clara, poderia pegar sua lancheira em cima da geladeira. O passo que deveria dar para consertar tais desligamentos era pausar a fuga da heroína ou adiar a viagem perigosa por dentre árvores densas e pegar a lancheira, colocar um copo d'água e dar à filha ou colocar ração pro cachorro.

Com o tempo, as noites na janela e as escapadelas para seu refúgio durante o dia não mais eram suficientes. Foi em um desses dias que teve seu estalo: as histórias todas já haviam sido contadas, agora só poderiam se repetir. Como suportaria isso?

Naquela noite, Clara encenou sua última peça inédita, uma com um final sem igual. E assim, antes de se deixar cair do 14º andar decidiu que esse detalhe também fazia parte. Não pensou na filha, no cachorro ou no marido. 'As histórias se acabaram', foi seu único pensamento.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

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Procura-se alguém que goste de andar de bicicleta, que goste das coisas simples e não seja uma pessoa vaga. Ambos os sexos. Não para amizade sincera, mas para uma conversa relevante e com conteúdo.

 Quem se encaixar no perfil acima, favor deixar e-mail pra contato nos comentários.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Livro da Vez: Ensaio sobre a cegueira...



Desde que o rádio foi posto de lado pela televisão que, mais recentemente, tem cedido lugar e dividido as honras com outras inovações tecnológicas nos meios de comunicação, passamos de um mundo auditivo para um mundo cada vez mais visual.

Nesse livro, Saramago vai explorar isso. Ele situa o início da narrativa num semáforo. É neste local que a primeira pessoa é acometida por uma espécie de cegueira e fica imersa em uma treva branca. A partir disso, o autor nos fornece materiais para jogar com a nossa imaginação, instintos e intuições humanas.

Não sei dizer ao certo se o texto facilita a empatia com as personagens, mas sei dizer que Saramago situa tudo tudo de maneira clara, com detalhes sugestivos que parecem indicar coisas que vão acontecer antes que elas aconteçam.
Numa tentativa de remediar o caos que se torna a ameaça feita pela treva branca a qual acomete pessoas sem alguma razão conhecida, a única coisa que se sabe é que o contato direto pode ser fatal, levando também à cegueira. Dessa forma as vítimas vão se multiplicando rapidamente. A solução encontrada pelos governantes do país é o isolamento dos cegos econtaminados, uma espécie de quarentena num hospício desativado. É, inicialmente, nesse espaço que se desenrola a tese do autor. E é também nesse espaço que os isolados têm que se organizar à sua maneira, sendo supridos apenas com itens básicos e comida que são racionados, totalmente dependentes dos soldados que os vigiam e são separados deles pelo medo do desconhecido.

Um traço do livro é o fato das personagens não terem nomes, sendo assim diferenciadas por algumas caraterísticas físicas ou por alguma posição em relação a um grupo ou a uma pessoa. Além disso, há algumas das características estilísticas do autor, como os parágrafos longos que, muitas vezes, duram páginas e que contêm discursos diretos dentro dos discursos indiretos, com pontuações limitadas a pontos e vírgulas.

A proposta de um outro mundo não só para ela e para os seus, mas para toda a humanidade é ameaça constante: um mundo que deverá recomeçar a partir do que não se pode ver. (Isso se a ponte com a civilização humana, sua história, invenções etc - que é representada por essa mulher - se romper).
O livro guarda consigo o mistério. Não revela causas ou o motivo de haver uma exceção à regra. Não revela porque apenas uma mulher permanece enxergando o mundo enquanto os demais estão imersos no branco total.

A pergunta é: esse mundo, tal como o conhecemos, sobreviveria sem a visão? Saramago responde claramente: Não. E mais, ele mostra o que o mundo se tornaria se, subitamente, fosse privado dela.
Será que ele defende tudo isso, um mundo totalmente ajustado e focado em apenas um sentido? Ou simplesmente mostra o que está dado, isso com o que concordamos e reproduzimos?
"Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara."Eis o convite do autor. Leia e responda a si mesmo.
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Indicado.